
Luiz Wachelke
É natural de Florianópolis e trabalha com criação desde 2006. Formado em Design Gráfico pela Universidade Federal de Santa Catarina, já atuou em áreas como direção de arte, moda, figurino e ensino. Dedicado às artes plásticas desde 2019, hoje mora na serra de Rio de Janeiro.
Sua pesquisa artística parte da investigação e experimentação do conceito de jardim através da fotografia e pintura. O jardim é explorado como paradoxos entre o que é natural e artificial, espontâneo e intencional, em composições que misturam figuras humanas e espécies botânicas.
EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL
PARAÍSO E SEMELHANÇA
LUIZ WACHELKE
2 a 18 de outubro
a c e r v o |. d i á r i a
Texto curatorial JULIANA LEITE
Para algumas tradições, revisitar de tempos em tempos as mitologias de origem, aquelas tidas como fundacionais, é também um gesto de segurança: na revisita, checam-se os marcos de fronteira do nosso psiquismo, aspectos que mesmo que inconscientes ainda têm o poder de formular algo do imaginário coletivo. Na presença do silêncio mitológico, esse lugar em que é possível contar uma história sem precisar definir todos os significados dela (nos disse Hannah Arendt), ficamos então livres para colocar os olhos outra vez no que parece já visto, já contado, dando de cara com o puro espanto das notícias do presente que, pasme, chegam do passado.
É numa trajetória de pesquisa em três narrativas de origem que Luiz Wachelke chega à composição do conjunto agora em exposição, intitulado Paraíso e Semelhança. Num gesto de tradição para a arte, assim como para a filosofia, o artista vai ao passado para reler com olhos do presente histórias criadas para organizar pactos de vida, afastando qualquer presença de mensagem para, na ambiguidade da imagem, tocar nas questões humanas que cruzam invencíveis o tempo: o amor, a morte, a angústia, a eternidade, a natureza, o pertencimento, a origem – mistérios que nunca deixam de pertencer à mão humana. É assim que as obras em exposição releem as narrativas dos sete dias da criação, da expulsão do paraíso e da ideia de um paraíso perdido alterando o princípio estético e imaginativo da jornada: o homem. Aqui, já não é possível ter acesso a alguém feito a imagem e semelhança de um ideal de pureza, original ou originário. Ao contrário, em “Paraíso e Semelhança” quem entra em travessia é o sujeito que já se encontra do outro lado da linha ao ter percorrido mais de um purgatório social, climático e político, embebido da linguagem contemporânea a ponto de fazer pensar em um novo arquétipo.
Na ausência de toda inocência, descartadas as expectativas de redenção, testemunhamos nas obras um homem afetado não apenas pela História, mas também pelas consequências de suas próprias ilusões, incorporando em gestos e posturas o tremendamente coletivo de um corpo individual. Cá está um corpo já sem memória dos deuses, que posa não para descobrir como se assemelhar ao divino, e sim para saber-se olhado, consumido e julgado, num apaixonamento inconsciente e persistente pela ambiguidade dessa experiência. Ao seu redor, a ideia de um jardim dos prazeres se altera e complica quando o corpo da natureza se vê em confronto com um corpo humano de puro desempenho, fazendo do Éden uma performance. O conjunto não se acanha ao aceno de que a angústia sempre fará parte da travessia humana, especialmente quando a felicidade se nega a ser uma face do sucesso, cobrando o retorno a uma busca contínua por sentido.
“Dias da Criação I - VII” se pergunta sobre a criação do Universo na presença de um protagonista apequenado em relação à natureza, cujo corpo sabe se exibir, performar, ainda que não compreenda para quê faz aquilo que faz, em nome de quê insiste, estando a beleza disposta a ludibriar inclusive o cansaço.
Em “Proibido I-II”, a clássica representação de Adão e Eva prestes a apanharem o fruto proibido avança para o século 21 para encontrar, em verdade, o mesmo homem de arquétipo contemporâneo agora desacompanhado, e curiosamente visto por dois ângulos (duas câmeras?), num jogo de linguagem que não só tira o fruto de cena (qual seria ele), como implica na solidão subjetiva de quem sustenta o gesto aguardando pelo tempo do registro – e pelo corte do artista.
Já em “Perdição”, ponto culminante do conjunto, Wachelke reúne e consolida todo o percurso filosófico, técnico e de linguagem que embasam a exposição, trabalhando a relação simultânea entre superficialidade e profundidade para projetar um corpo pretensamente relaxado enquanto a cena (o drama) oferece um claro risco de desaparecimento. Usando do mesmo recurso das mitologias, a verossimilhança, “Perdição” se assemelha tanto ao real que permite a ilusão de que tudo seja mesmo real, guardando o duvidoso dentro do pacífico. Alterando tamanhos e proporções, mas também cores das espécies vegetais e o comportamento natural das sombras, Wachelke irmana o artificial ao natural, incluindo o impossível como elemento pictórico. Cabe ao espectador a decisão de como entrar em diálogo com o claro enigma.
Paraíso e Semelhança toca de maneira singular em grandes questões do contemporâneo como a dúvida sobre o que é ou não verdade, a vontade contínua pelo êxito performado, pretensamente perfeito, contorcendo a intuição de que por ser belo, algo só poderia mesmo ser verdadeiro. Ao contrário, na era das redes sociais, beleza e verdade não coincidem – garante Byung-Chul Han, desperto para um corpo que, em exibição, sempre estará instrumentalizado. Com total domínio e desejo pelas ambiguidades de gestos e jardins, Luiz Wachelke propõe um caminho em que beleza e desconfiança não se apartam, instalando elos, mas também distâncias importantes entre ver e crer, beleza e verdade, natureza e invenção.




























