SUPERFÍCIE VISTA
Exposição por Raphael Dias
Texto curatorial por Yohannah de Oliveira.
O olhar precede a vontade; é ele quem primeiro desenha o mapa do que merece nossa atenção. Ele percorre a paisagem à frente, atravessando luz e matéria com a delicadeza daquele que busca compreender, movido pela faísca do desejo e da curiosidade. Nesse gesto sutil e subconsciente, estabelece-se a origem de toda percepção: é o olhar que guia o raciocínio, não o contrário. Diante da paisagem, nossa mente apenas acompanha o percurso inaugurado pelos olhos, explorando aos poucos as camadas do visível que se revelam depois do primeiro impacto.
Em Superfície Vista, Raphael Dias apresenta sua exposição individual inédita composta por tapeçarias tecidas em lã natural e sisal e por intervenções cerâmicas em colaboração com Leticia Yumi. As obras se infiltram e se expandem entre si e pelo espaço como líquens sobre as rochas, instaurando camadas de forma, textura e presença. Nesse conjunto, o artista explora a paisagem de maneira sutil e refinada, partindo do ímpeto do olhar — primeiro gesto de aproximação — que registra por meio da fotografia. São as fotografias que orientam tanto seu processo compositivo quanto a seleção de cores exploradas no ambiente, capazes de transformar cada fragmento da paisagem em um pequeno universo próprio.
As composições do artista valorizam o detalhe como um universo próprio, onde cada fragmento da trama ganha protagonismo. A mescla inédita entre lã e sisal cria variações de textura e altura, intensificadas pelo uso das franjas, que surgem como extensões orgânicas das tapeçarias. Esses elementos evocam diretamente a espontaneidade e o crescimento irregular dos líquens, inspirando uma presença que se expande e se desdobra além da superfície tradicional do tecido. O resultado é uma superfície viva, repleta de volumes, sombras e ritmos sutis, convidando o olhar tanto à imersão quanto à descoberta atenta.
Na experiência proposta por Superfície Vista, somos convidados a mergulhar não apenas no universo delicado do artista, mas também nas múltiplas camadas da nossa própria percepção. A experiência do olhar sobre suas tapeçarias e intervenções é um convite à contemplação que se estende muito além da tradição milenar da prática têxtil, revelando nuances que escapam ao olhar comum e sugerindo um diálogo íntimo entre obra e observador. Nesse encontro, o que emerge não é apenas a superfície visível, mas uma abertura para explorar dimensões internas, geralmente invisíveis, que ampliam nossa relação com o mundo e conosco mesmos.
Superfície Vista
_Abertura: 25/10 sábado, das 12h às 19h
_Em cartaz: até 08/11
Curadoria e Texto: Yohanna Oliveira
